Salar de Uyuni, natureza bruta

Por Alexandre Costa

MapaO maior deserto de sal do mundo, localizado na região sudoeste da Bolívia, é um dos destinos mais surpreendentes da América Latina. Natureza em estado bruto, o Salar de Uyuni é a porta de entrada para um passeio de três dias que te leva a paisagens desérticas exuberantes e lagoas coloridas belíssimas, com direito a banho em um poço de água quente vulcânica em meio a temperaturas congelantes e a um fedorento gêiser a quase cinco mil metros de altitude (prepare as roupas de frio).

Visitei essa região inóspita em novembro de 2013 com minha esposa e um casal de amigos, como parte de um roteiro de viagem incrível de 15 dias que se iniciou em Cusco, no Peru, e terminou no Deserto do Atacama, no Chile.

Planejamos o passeio de três dias pelo Salar de Uyuni e havia um certo temor em nosso grupo sobre a estrutura que encontraríamos, mas diante dos relatos alarmistas que havíamos encontrado, me surpreendi favoravelmente com a quase ausência de perrengues…

Copacabana 01
Copacabana, à beira do Lago Titicaca

Iniciamos nossa visita à Bolívia pela bela cidade de Copacabana, à beira do Lago Titicaca. E antes que você imagine que os bolivianos copiaram o nome da famosa praia carioca, saiba que foi justamente o contrário: na época do império Inca, os moradores da região do lago adoravam uma deusa de nome Kotakawana. Como os conquistadores espanhóis sabiam reconhecer os atalhos para a dominação alheia, adaptaram o culto e a divindade inca passou a ser uma representação da Virgem Maria, sob a alcunha de Nossa Senhora de Copacabana. Daí até a exportação do nome para o Rio de Janeiro foi um pulo…

Da pequena e simpática Copacabana partimos em um confortável ônibus de turismo até a capital do país, La Paz, que é de uma feiura arquitetônica estonteante. Passamos apenas uma noite na capital localizada a 3.600 metros de altitude e, no dia seguinte, tomamos um avião da companhia Amaszonas para a cidade de Uyuni – base para o passeio pelo deserto de sal para quem parte da Bolívia.

A rota também pode ser feita a partir de San Pedro do Atacama, no Chile, por um preço mais alto…

La Paz 01
La Paz, capital nas alturas

A passagem área para Uyuni custou, com as taxas, menos de R$ 350 por pessoa (com o dólar então cotado em R$ 2,50). O vôo tranquilo de pouco menos de uma hora substituiu com louvor uma longa e (dizem) desconfortável viagem de ônibus de quase oito horas de La Paz até o sudeste do país. Vá por cima!

O minúsculo aeroporto de Uyuni fica colado à desértica e desolada cidade. Fomos de taxi até a rua onde se encontram as empresas que fazem o passeio pelo salar – são diversas opções e rola um certo desconforto na forma ríspida como o pessoal das agências tenta cooptar os turistas. Após sermos arrastados para duas ou três lojinhas para ver fotos dos passeios e, principalmente, das hospedagens onde ficaríamos durante as duas noites do roteiro que terminava no Chile (em San Pedro de Atacama), decidimos pela Expediciones Empexsa muito por conta do relato favorável de um brasileiro no livro de visitas da empresa.

O preço por pessoa para o passeio completo, com hospedagem e refeições incluídas? Pouco mais de US$ 100…

vulcão salar
Vulcão Tunupa

Antes de iniciar a viagem compramos muita água mineral (já havíamos nos abastecido com salgadinhos e bolachas quando passamos por La Paz) e ajudamos nosso guia, o calado Johny, a empilhar as bagagens no carro. Pelo que vimos depois, especialmente ao chegar nas hospedagens onde dormimos, a impressão é que não faz muita diferença qual empresa você escolhe: o roteiro básico do passeio é o mesmo. Nós fizemos um pequeno desvio até o Vulcão Tunupa, no norte do Salar, onde buscamos um casal de holandeses que se juntou ao nosso grupo.

A primeira parada do passeio é no cemitério de trens localizado ainda na cidade de Uyuni. A região foi por muito tempo um importante ramal ferroviário boliviano, levando minérios da região de Potosí até o porto de Antofagasta, no Oceano Pacífico, mas viu seu movimento cessar quando as impressionantes riquezas minerais da Bolívia foram finalmente sugadas até a extinção. Os trens, inúteis, foram abandonados e se tornaram um símbolo da (má) sorte de Uyuni e da própria Bolívia. Pausa obrigatória para fotos num cenário pós-apocalíptico no estilo Mad Max…

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A Bolívia, apontada como o país mais pobre da América do Sul, vive sob o signo da injustiça: depois de ter quantidades abissais de prata e cobre roubadas por espanhóis e ingleses por séculos, viu sua saída para o mar usurpada pelos chilenos no século XIX. A região de Antofagasta (onde está localizado o Deserto do Atacama e as cidades de San Pedro de Atacama e Calama), parte do território boliviano explorada por empresas mineradoras chilenas com capital inglês, foi anexada em 1879 pelo Chile, dando início à Guerra do Pacífico. Com a vitória militar em 1883, os chilenos tomaram definitivamente a área, reclamada até hoje pelos bolivianos…

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Foto de Takashi Nakagawa/National Geographic

A cidade de Uyuni fica na borda do salar, que se assemelha a um grande mar de sal entre os meses de abril e novembro – no verão, com a chegada do período de chuvas e derretimento de geleiras nos Andes, parte da área fica alagada e cria um imenso espelho d’água. O maior salar do planeta tem mais de 12 mil km² de área (mais da metade da extensão do Estado do Sergipe) e foi formado pela evaporação da água salgada de um enorme lago.

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A maior atração do Salar de Uyuni é a Isla Incahuasi. Ela se destaca por ser uma das poucas áreas elevadas do salar, permitindo uma vista fantástica do deserto, e também por seus belos cactos gigantes que dizem ter mil anos de idade. O nome Incahuasi significa Casa do Inca na língua quéchua, dando a pista de que o local servia como parada para os habitantes da região que atravessavam o salar (sabe-se lá por quê). Estranhamente, entretanto, às vezes você vai encontrar referências em português ao local como Ilha do Pescado…

Salar Uyuni 01A parada na Isla Incahuasi é obrigatória para todos os grupos que passeiam pelo salar. Aqui também é o ponto onde muitas fotos engraçadinhas são tiradas: aproveite e entre no clima. Nem sempre o resultado fica bom, mas não custa tentar.

Ao fim do primeiro dia de passeio pelo salar, ficamos hospedados em um interessante hotel construído com blocos de sal. Tínhamos até acesso a água quente (banho de cinco minutos) e o jantar foi bem saboroso – havíamos almoçado na parada de Isla Incahuasi: uma refeição com legumes, quinoa e frango levada pelo nosso guia Johny. Nada de perrengue!

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Hotel de sal

O segundo dia de passeio é o mais puxado, com muitas horas de chacoalhões dentro do carro – não existem estradas propriamente ditas nesta região e é incrível acompanhar a habilidade dos guias em encontrar os caminhos certos (não é preciso nem dizer que, para alguém de fora, seria estupidez tentar dirigir por estas trilhas).

Dica FUNDAMENTAL: leve um pen-drive com uma seleção de músicas da sua preferência, sob pena de ter de ouvir por horas, em looping, um pot-pourri estranho como o do Johny, que ia de músicas locais esquisitíssimas até pop adolescente japonês. Se bem que essa tortura acaba sendo divertida…

Já fora do deserto de sal propriamente dito, nesta parte do roteiro passamos por lagoas coloridas belíssimas e paisagens desérticas pontilhadas de curiosas formações rochosas. Depois de encarar muita poeira, chegamos na hospedaria localizada no meio do nada que tanto assustava nosso grupo. Esqueça as comodidades da vida moderna por aqui: os banheiros não possuíam água quente (numa altitude de cerca de 4 mil metros, você pode imaginar como era frio) e os quartos coletivos eram muito rústicos, bons apenas para uma noite mal-dormida…rs

Acordamos antes do sol nascer para o último dia do roteiro, que começou com uma visita ao Gêiser Sol de Mañana, localizado a cinco mil metros de altura. Apesar do frio congelante da manhã e do cheiro de ovo podre inesquecível, é uma atração sensacional: ao caminhar com cuidado entre os jatos de vapor quente que emanam das profundezas da Terra, você se sente como um astronauta explorando mundos alternativos. Diversão pura!

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Gêiser Sol de Mañana

Após o gêiser, a parada é nas Águas Termales de Polques. A piscina natural quente, cercada de água congelada e ventos frios andinos por todos os lados, é um desafio para os friorentos: muitos turistas preferem manter as calças, blusas e gorros e só apreciam a vista da piscina e do entorno. Quem entra, por outro lado, não se arrepende – a sensação de curtir um banho quente ao ar livre neste cenário é única. Pena que a parada é rápida, de cerca de 30 minutos.

Quando visitamos o salar, no final de 2013, a estrutura de apoio nas Termales de Polques era precária: apenas uma modesta construção com um banheiro impróprio para o uso e, fazendo as vezes de vestiário, dois cubículos com o chão sujo e sem lugar para pendurar as roupas. Os visitantes menos puritanos (basicamente os gringos) se trocavam do lado de fora mesmo…

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Termales de Polques

Após a imersão nas águas termais, passamos por uma região apelidada de Deserto Dalí, por conta da paisagem desértica pontilhada por pedras que remetem às pinturas do espanhol Salvador Dalí. A última parada é na Laguna Verde, com o belo vulcão Licancabur ao fundo. A divisa com o Chile fica a poucos minutos do local e de lá nos despedimos de nosso guia, tomando uma van que nos levou a San Pedro do Atacama.

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Formações rochosas no meio do deserto

A região do Salar de Uyuni pode não ter uma estrutura de primeira linha para os turistas mais exigentes (ou frescos), mas compensa isso com uma beleza estonteante e a prestatividade de seu povo. Sem dúvida é um dos melhores destinos de ecoturismo do mundo, e está a um pulo e poucos reais de distância do Brasil.

É surpreendente perceber que entre os grupos de turistas com os quais cruzamos durante os três dias de passeio, havia mais europeus do que brasileiros. Certamente temos de olhar com mais atenção para as ótimas atrações de nossos vizinhos…

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