Veneza, La Sereníssima

Por Alexandre Costa

veneza mapa rNada que você tenha visto no mundo é capaz de te preparar para a experiência de conhecer Veneza. Como acreditar que essa cidade surpreendente, outrora sede de um poderosíssimo império marítimo, cresceu em todo seu esplendor e beleza a partir da ocupação e ampliação de uma série de ilhotas e bancos de areia no extremo norte do Mar Adriático? A sucessão de palácios belíssimos como que flutuando à beira do Gran Canal é, sem dúvida, uma das mais estonteantes paisagens da Itália, um país repleto de lugares magníficos.

Uma dica fundamental para quem não quer gastar muito com hospedagem em Veneza é… não se hospedar em Veneza.

Na margem continental da laguna que cerca a cidade histórica está localizada Mestre, parte da província veneziana que oferece diversas opções de hotéis, pousadas e hostels por menos da metade do valor cobrado nas ilhas. Nesse ponto é hora de pesar os prós e contras da decisão: a economia por não ficar na Veneza propriamente dita é grande, até porque você vai ter de desembolsar muitos e muitos euros para se hospedar nos hotéis mais arrumados e em locais mais turísticos das ilhas. As pechinchas em Veneza certamente vão te colocar em hospedagens bem mais rústicas do que as oferecidas no continente.

Eu e minha esposa ficamos no Hotel Vidale: por 20 euros a diária ficamos em um quarto privativo com banheiro compartilhado. Gostamos bastante do lugar, que tem um custo-benefício sensacional – o hotel está a poucos metros do ponto de ônibus que leva direto a Veneza (20 minutos de viagem, por menos de dois euros a passagem). Ele fica perto de um grande supermercado (ótimo para comprar delícias para um jantar econômico – leia mais aqui – e para o café da manhã, que não é oferecido na hospedagem) e a cerca de dez minutos da estação de trem de Mestre, de onde chegam e partem composições para diversos destinos do país.

Chegamos a Veneza em uma terça-feira de Carnaval. Mesmo sendo a festa mais tradicional da cidade, suas ruas não estavam tão repletas de turistas como nos meses de alta temporada no verão – aliás, na quarta e quinta-feira pós-folia a cidade já estava bem mais vazia e agradável. Amigos que visitaram Veneza na alta temporada tiveram uma impressão muito menos romântica ao passear por suas ruelas tomadas pela multidão, por isso é bom ter em mente estas questões quando estiver planejando sua viagem.

Sempre que possível fuja da alta temporada na Itália, a não ser que você goste do clima de micareta ou do aperto da Linha Vermelha do Metrô de São Paulo às cinco da tarde…

Visitar Veneza é fazer um exercício de imaginação. Em alguns momentos é quase possível sentir como deve ter sido viver no esplendor desta cidade naval magnífica, com seus palácios de mármore brotando da água para exibir ao mundo a riqueza de seus mercadores. Veneza também é fonte de inspiração para todos os turistas, por ser berço de grandes navegadores e exploradores como Marco Polo, que no longínquo século XIII conheceu os confins dos impérios mongol e chinês e os narrou para incrédulos patrícios, no que pode ter sido um dos primeiros ‘guias de viagem’ da história.

Falando em história, a que narra o surgimento desta cidade (e império) é interessantíssima. Com a queda no ano 476 do Império Romano do Ocidente (ele se manteve em pé no Oriente, com capital em Bizâncio), a península italiana e suas ricas cidades e povoados virou presa fácil para saques de diversos povos vindos do leste e do norte. Como forma de escapar da violência, parte da população da região norte do Mar Adriático começou a ocupar as ilhas lagunares e acabaram as desenvolvendo lentamente. Conhecida como La Sereníssima, Veneza com o tempo foi enriquecendo graças ao comércio marítimo, especialmente com o Império Bizantino, e atingiu o auge de seu poder no século XIII.

restaurante em canal

Veneza possui diversas atrações incríveis, como o Palazzo Ducale, a Basílica de San Marco e sua praça mundialmente famosa, as ilhas de Burano e Murano, dezenas de museus, palácios, igrejas e galerias de arte – o que torna fundamental a compra do passe Venezia Unica, que dá direito a entrada em inúmeras atrações e acesso ilimitado ao vaporetto, barcos que fazem o transporte de passageiros nas ilhas. Mas, provavelmente, a melhor atração de Veneza seja a cidade em si: caminhar por seus labirínticos canais, inevitavelmente se perdendo em ruelas estreitas que hora chegam ao fim em barreiras de água intransponíveis, hora se abrem em belas e bucólicas praças, é uma das melhores coisas que você poderá fazer na Itália.

canal veneza

O senso de desorientação experimentado em Veneza não tem paralelo com nenhum outro lugar que conheci, portanto tenha cuidado se você se hospedar na cidade: prepare com cuidado um mapa com a rota até seu hotel, sob risco de ter muitas dificuldades para encontrá-lo pela primeira vez – especialmente se você chegar à noite.

Tirando o perrengue de se perder carregando suas malas, no resto do tempo esse ambiente labiríntico é divertido: mesmo sem querer, mais cedo ou mais tarde você se verá ao lado do Grande Canal ou dará de cara com a Piazza San Marco (e para isso, as indicações de caminho para Rialto e San Marco pintadas nas paredes de muitos ‘cruzamentos’ são ótimas). Só não deixe para comprar depois aquele doce sensacional que você viu em uma lojinha numa ruela, porque pode ser que você nunca mais encontre o lugar.

Por falar em comida, os preços nos restaurantes de Veneza são um pouco salgados – principalmente naqueles perto da Piazza San Marco. Em locais mais afastados você encontra opções mais em conta. Agora, um lugar sensacional para bolsos mais vazios é o Dal Moro’s. Espécie de fast food com qualidade de verdade, esse pequeno restaurante vende opções de massas artesanais frescas sensacionais para comer em pé (eles não têm mesas), na faixa de cinco a sete euros. São diversas opções, uma melhor que a outra. Indicadíssimo!

Das atrações ‘entre paredes’, o destaque fica com o Palazzo Ducale. Sede do governo de Veneza por quase 700 anos, a construção é belíssima por dentro e por fora. Seus suntuosos aposentos são a representação material do poder da Sereníssima República de Veneza, que de império comercial e naval até o fim do século XV se transformou em polo produtor de arte e imã para turistas de todo o mundo. É difícil não ficar boquiaberto com a beleza e riqueza dos detalhes nas salas do Consiglio dei Deice, della Bussola e del Maggior Consiglio.

Além de conhecer salões imponentes, repletos de obras de arte, os visitantes também têm acesso às antigas celas da prisão da cidade e passam por dentro da famosa (e nada romântica) Ponte dos Suspiros. Os incautos podem achar que o nome é inspirado nas belezas da cidade, mas o motivo é mais sombrio: os suspiros ouvidos na ponte não eram de casais apaixonados, mas sim dos presos que, de dentro da passagem que liga duas alas do complexo do Palazzo Ducale, viam às vezes pela última vez a baía de Veneza quando iam para suas celas. Desta prisão escapou Casanova…

A Basílica de San Marco, com suas belas linhas bizantinas, ouro e ostentação para todo lado, é a principal igreja de Veneza e domina as atenções na praça central da cidade. Ela é menos imponente (em tamanho) que outros famosos templos cristãos europeus, mas sem dúvida merece uma visita – é uma pena não podermos fotografar seu interior. A história em torno de sua construção é curiosa: a obra, que demorou quase 800 anos para ser concluída, começou após comerciantes venezianos contrabandearem do Egito, no ano 828, o corpo de São Marcos dentro de um barril de toucinho.

Nos três dias que passamos na cidade também conhecemos meia dúzia das dezenas de igrejas localizadas em diferentes ilhas da laguna, algumas com arquitetura bem diversa das outras, mas a não ser que seu foco seja esse, não dá nem para chegar perto de se explorar todos os monumentos religiosos venezianos. Aparentemente todos os mercadores ricos e poderosos da cidade competiam para ver quem fazia doações mais polpudas para a Igreja Católica construir seus templos, o que fez brotar dezenas de belas igrejas nesse limitado espaço geográfico…

E falando em riqueza e competição, não deixe de conhecer ao menos dois ou três dos palazzos da cidade, como o Ca’ Pesaro (que abriga um museu de arte moderna) e o Palazzo Mocenigo. Geralmente abrigando exposições de arte ou de objetos da época de ouro de Veneza, estes locais permitem aos turistas conhecer um pouco mais de como era o cotidiano das famílias venezianas mais abastadas. As opções são muitas e o passe Venezia Única abrange um bom número delas. Para quem se interessa por museus, outra boa pedida é o Museo Correr, na Piazza San Marco, que abriga a estupenda Libreria Nazionale Marciana.

libreria nazionale marciana.jpg
Libreria Nazionale Marciana

Veneza é surpreendente e vibrante, e conhecê-la com pressa seria uma pena. Eu e minha esposa passamos três dias na cidade e não seria um exagero ficar ao menos mais um explorando suas possibilidades. Bate-e-volta em Veneza só se você realmente não tiver como reservar um tempo maior para explorar seus tesouros.

Murano e Burano

Para completar a lista de passeios fundamentais de Veneza, temos as belíssimas ilhas de Murano e Burano. Localizadas em pontos mais distantes da laguna, essas versões em miniatura e um tanto bucólicas de Veneza são conhecidas pela sua produção de vidros coloridos e renda, respectivamente. Uma dica importante: você pode sim chegar às ilhas usando os vaporettos (que já estão incluídos no preço do passe Venezia Única), mas apenas o trajeto até Burano leva cerca de uma hora e meia – lembre-se que eles são como versões aquáticas de um ônibus de linha regular, fazendo diversas paradas e por vezes ficando bem cheios.

Fachadas Burano
As famosas casas coloridas de Burano

Se você está com o cronograma apertado, talvez seja interessante visitar as ilhas com os barcos rápidos das agências de turismo – mas aí você vai ter de desembolsar cerca de 25 euros por pessoa e ficará preso aos horários dos grupos. Caso prefira ir por conta própria nos vaporettos, é melhor reservar o dia todo para o passeio, para não ter de sair correndo pelas ilhas para dar tempo de ver tudo o que deseja.

Murano, a primeira parada na visita às ilhas, foi um centro mundial de produção de vidro (os venezianos que trabalhavam com cristal e vidro tiveram de mudar para a ilha por conta do risco de incêndios em Veneza). Graças a uma vigilância severa – os artesãos que ousassem tentar sair da cidade eram condenados à morte -, os mestres de Veneza conseguiram manter por séculos os segredos da produção de seus mundialmente famosos vidros coloridos.

Na ilha, são diversas as fábricas abertas para visitação pelos turistas, que podem ver de perto o trabalho dos habilidosos artesãos manipulando o vidro incandescente. Quem viu recomenda, mas eu e minha esposa acabamos conhecendo apenas o interessante Museu do Vidro, com exposição de esculturas feitas com o material e objetos de diferentes séculos. Vale conferir.

Burano, conhecida por suas casas coloridas e rendas feitas à mão, fica mais afastada de Veneza em relação a Murano. Ela é conhecida por suas charmosas casinhas coloridas, que fazem a alegria dos fotógrafos profissionais e amadores.  É um belo local para um passeio, com seus pequenos e calmos canais cercados – e uma paisagem bem diversa daquela que vemos em Veneza, com seu movimento frenético e imponentes palácios.

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Ir para Burano é como visitar uma cidadezinha do interior, com o adendo de que essa cidadezinha está localizada no meio da água. A ilha possui diversas lojas que vendem rendas, mas nem todas oferecem aos turistas produtos locais – hoje em dia são poucas as rendeiras ainda trabalhando em Burano. Para manter viva essa tradição artesanal, um projeto incentiva que as novas gerações de ilhéus abracem o ofício – o Museu del Merietto, além de exibir exemplos da refinada arte das rendeiras de Burano, também mostra um pouco da luta por sua preservação.

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